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Cuidar de uma criança com cancro: e agora?

Criança com cancro

Quando uma criança é diagnosticada com cancro, parece que o mundo pára de girar e é invadido por um sentimento de impotência quase intolerável. Não pode deixar que assim seja – pela criança e pela sua saúde. Essa criança nunca precisou tanto de si e você tem de se manter calmo para a ajudar a ultrapassar esta fase, que será provavelmente uma das mais complicadas da sua vida.

  • Conhecido o diagnóstico, é importante que tenham ao vosso lado um médico em quem confiam e com quem todos, principalmente a criança, se sintam à vontade. Ouça com atenção tudo aquilo que lhe é explicado, faça perguntas e esclareça todas as suas dúvidas relativamente aos tratamentos, à toma dos medicamentos ou possíveis efeitos secundários e o que fazer em cada uma dessas situações. Se necessário, tome notas. Se, mesmo assim, não concordar com algum tratamento ou sugestão feita pelo médico, não hesite e procure uma segunda, terceira ou quarta opinião.
  • Todas as suas atenções têm de estar voltadas para a criança e não para a doença, no entanto, é fundamental que saiba tudo o que há para saber sobre o cancro com o qual foi diagnosticado. Existem mais de uma centena de tipos de cancro e outros tantos tratamentos, sem esquecer que cada caso é um caso. Por isso, se estiver por dentro do assunto, vai perceber melhor aquilo que a criança está a viver e estará melhor preparado para lidar com todas as decisões que terá de tomar e com as dificuldades que possam surgir. Os grupos de apoio são sempre uma ajuda excepcional, porque todos sabem exactamente aquilo que está a passar. Não deixe de os procurar.
  • De um dia para o outro, a sua vida vai virar-se de pernas para o ar. Procure os familiares e amigos com quem sempre pôde contar e seja específico relativamente às diferentes maneiras em que podem ajudar – cozinhar uma refeição, fazer as compras ou tratar da roupa (lavar, estender, passar a ferro). Vai precisar de toda a ajuda possível, por isso, aproveite-a bem.
  • Sobreviver a um cancro na família é uma prova de esforço diária para cada um dos seus elementos. A comunicação e a entre-ajuda nunca foram tão importantes. Se se evitarem uns aos outros, inventando desculpas para não falarem do assunto, vai gerar-se uma bola de neve que pode tomar proporções caóticas. Para além da doença e de terem uma criança a sofrer à vossa frente, há que adaptar a novas rotinas, com responsabilidades acrescidas. É importante que toda a família esteja sempre informada e que se possa falar abertamente sobre o que se está a passar. Podem aguentar fazer tudo sozinhos durante algum tempo, mas não o vão conseguir fazer eternamente – considere a contratação de uma enfermeira e/ou uma mulher-a-dias. Esta despesa extra pode valer a pena se pensar que vai evitar o esgotamento físico e emocional de quem quer carregar o mundo nas suas costas.
  • Não se afaste do seu marido/mulher, porque aqui não há culpas. O momento é para estarem unidos, pela criança e pelo casal. Se a criança tiver irmãos, não se esqueça que também as suas vidas mudaram muito – podem sentir-se culpados pelo que está a acontecer ao irmão, ou estarem assustados e zangados por já não terem tanta atenção sua. Procure passar tempo com os seus outros filhos: a brincar, a falar ou simplesmente a ouvi-los. Numa altura em que tudo está diferente e o dia-a-dia já não é o que era, as crianças precisam de conforto, carinho, orientação e disciplina.
  • A criança com cancro também precisa de conforto, carinho e orientação. Mas também de disciplina. Quando um pai ou uma mãe descobre que o seu filho tem cancro, a tendência é para mimá-lo, quebrar as regras e deixá-lo fazer tudo (ou quase tudo) aquilo que quer. É natural, no entanto, quando enfrentadas com uma realidade como esta, o que as crianças mais precisam é que os seus pais sejam pais.
  • Sempre houve regras, por isso, agora não deve ser diferente, até porque a criança pode começar a desrespeitar os pais e as outras pessoas à sua volta (irmãos, outros familiares, amigos, médicos…), tornar-se egoísta ou exigente. Se não houver um equilíbrio, a criança pode pensar que as regras da vida e da sociedade já não se lhe aplicam, que os seus pais afinal não têm a situação sobre controle ou que estará mais doente do que realmente lhe estão a dizer, porque o deixam fazer tudo e mais alguma coisa. É fundamental perceber que a estabilidade e o bem-estar são extremamente importantes para as crianças e as regras contribuem para isso mesmo.
  • As crianças não sabem expressar verbalmente as suas emoções, por isso, quando estão assustadas reagem muitas vezes fisicamente, de forma zangada e até violenta. Para evitar momentos esgotantes como estes, seja sempre aberto e honesto com a criança. Procure não esconder nada, explicando, da melhor forma possível, os tratamentos, o que vai acontecer a seguir, possíveis efeitos, etc.
  • Vai passar muitos e longos dias no hospital, estadias estas que vão ser muito stressantes, quer para a família, quer para a criança. Manter uma criança ocupada e tranquila enquanto está confinada a uma cama de hospital não é tarefa fácil. Eis algumas dicas: esteja sempre do seu lado, a criança sentir-se-á mais segura assim; traga de casa alguns objectos familiares como peluches, livros ou brinquedos; divirtam-se com jogos e conversem, tal e qual como se estivessem em casa – manter o ambiente “normal” é reconfortante; leiam livros porque as histórias são sempre um bom escape, e cantem canções porque a música é muito relaxante; distraia a criança com papel e marcadores ou se o hospital tiver uma sala de convívio leve-a até lá para poder brincar com outras crianças ou com os seus próprios irmãos.
  • Os efeitos secundários dos tratamentos normalmente associados ao cancro, nomeadamente a quimioterapia, podem ser muito complicados. Esteja preparado para o que vai ver e para o que tem de fazer para ajudar a criança a recuperar. Para além das náuseas, a quimioterapia afecta o apetite e o paladar. Nesta fase, será muito difícil alimentar a criança, mas recuperar energias é fundamental e isso significa um aumento na ingestão diária de calorias. A quimioterapia acelera o metabolismo de tal forma que chega a um ponto em que, para além de queimar calorias, começa a queimar as gorduras reservadas e, eventualmente, os músculos, o que leva a uma perda de peso significativa. Assim sendo, a criança deve seguir uma dieta rica em proteínas para repor a perda de músculo e recuperar as suas forças. A criança vai comer pouco, por isso, terá que aproveitar cada momento para alimentá-la com o maior número de calorias possível. Opte por batidos, leite, iogurtes (com pedaços de chocolate por exemplo), queijo, tostas, alguns bolos e bolachas, massa, entre outros alimentos que não custe tanto comer. Pode não ser a refeição ideal, mas nesta altura é melhor comer alguma coisa do que nada. O mais importante é que a criança se alimente. Na maioria dos casos, será uma boa ideia adicionar um suplemento multivitamínico. Para refrescar o seu paladar, dê à criança alimentos com sabores fortes como ananás ou outras frutas.
  • De regresso a casa, é importante manter a rotina familiar e não fazer a doença a personagem principal do vosso quotidiano. Se a criança puder voltar à escola e às suas restantes actividades, óptimo! Se não, procure programas alternativos para mantê-la activa. Estabeleça um horário para os medicamentos, para as refeições e para descansar. Assegure que cada membro da família faça alguma coisa para ajudar em casa, inclusive a criança doente. Fora pequenas excepções, há sempre alguma tarefa que a criança possa executar – para o bem dela e para a dos outros – reforçando assim o espírito de família e cooperação.
  • O cancro não é contagioso mas, mesmo assim, muitas das crianças que sofrem com a doença vêem-se, de repente, sem amigos. Devido às suas idades e à incompreensão da situação em si ou ao facto da criança estar agora muito modificada fisicamente (mais magra, sem cabelo, …), este “abandono” pode ser muito sentido. O ideal é evitar que tal aconteça, mas como não se pode controlar tudo, incentive a criança a fazer novas amizades, seja onde for. A criança precisa de conviver e de brincar com outras da sua idade.
  • Não descarregue os seus medos e frustrações na criança. Descarregue sim, muito amor, carinhos, abraços e beijos. Diga-lhe todos os dias, e mais que uma vez, o quanto gosta dela. Sobretudo, há que rir e divertirem-se. Sim, é isso mesmo. Pode parecer difícil e até inapropriado, mas é uma forma excelente de ultrapassar os dias menos bons, de dar força à criança e a si também. É importante continuar a tratar a criança como sempre a tratou. É importante que mantenha a esperança. Lembre-se: cada dia que essa criança está viva é um bom dia.
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